25 de outubro de 2019 – nº 1356

Inovação e tecnologia marcaram o primeiro dia do 22º Congresso Internacional UNIDAS

Na manhã de quinta-feira, 24, no Hotel Bourbon, em Atibaia (SP), o presidente da UNIDAS, Anderson Mandes, abriu oficialmente o 22º Congresso Internacional UNIDAS – A importância das Autogestões na Transformação do Setor de Saúde do Brasil. Anderson iniciou agradecendo a presença de todos os presentes, que fizeram com que essa edição do evento tivesse o maior número de filiadas e participantes de todos os congressos da UNIDAS, e falou sobre o futuro da entidade. “Revimos as crenças e valores que permeiam a nossa instituição e construímos um planejamento estratégico que vai criar uma entidade mais forte. Compartilhamento e colaboração farão parte da UNIDAS do futuro”, afirmou.

Anderson também fez o lançamento oficial da UniShare, que visa transforar o setor, viabilizando um espaço de troca de experiências e aprimoramento entre operadoras e prestadores. Pela plataforma também será possível, por exemplo, identificar quais prestadores têm as melhores avaliações em determinados serviços de saúde. É um projeto totalmente disruptivo e não existe hoje no mercado de saúde”, destacou.

Sustentabilidade do Sistema de Saúde Privado no Brasil

O primeiro painel girou em torno de discussões sobre os desafios da saúde suplementar e a sustentabilidade do setor. O presidente da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (ABRAMED), Wilson Shcolnik, fez a primeira apresentação onde falou sobre os desafios no contexto da medicina diagnóstica, que estão relacionados a incorporar o que tem valor no sistema; o monitoramento do desempenho das empresas; conter desperdícios; saúde digital; novas formas de remuneração; e questões éticas.

“Os impactos na subutilização são enormes, mas o compartilhamento de informações no sistema fragmentado que temos hoje precisa ser superado e isso só acontecerá com a interoperabilidade”, acrescentou o especialista. Wilson também falou um pouco sobre modelos de remuneração diferentes do fee for service – cujo pagamento é feito por procedimento – e sobre a medicina especializada: “a medicina personalizada é a realidade e precisamos lidar com essa integração de dados para oferecer uma racionalidade no cuidado médico focado em cada pessoa”.

Em seguida foi a vez do presidente da ANS, Leandro Fonseca da Silva, falar sobre a sustentabilidade do mercado de saúde suplementar. “O mercado cresceu 50 % desde o início da regulação ou marco regulatório. Nesse mesmo período, a população brasileira cresceu 20%. Ou seja, tivemos uma inclusão real no sistema de saúde suplementar”, acrescentou.

Leandro também falou sobre a necessidade de integração entre o setor público e privado. “Claro que o modelo que nos trouxe até aqui não é o mesmo que vai nos levar para o futuro porque estamos tendo uma grande evolução tecnológica. Temos que pensar como um sistema único e, sobretudo como integrar esses sistemas para que a população tenha uma saúde melhor”.

“Não temos um cuidado com o resultado. A saúde hoje está fragmentada e isso é reforçada pelo fee for service. A ANS quer que a operadora faça gestão de saúde populacional”, afirmou.

Para finalizar, Bruno Toldo, médico e diretor médico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz da unidade Vergueiro também abordou sobre os desafios para a sustentabilidade do sistema de saúde privado no Brasil, sobre o cenário da saúde suplementar e os altos custos do sistema.

Talk Show – Inovações e Tendências na Área da Saúde

Diferentemente de países como Estados Unidos, Inglaterra e Portugal, que já regulamentaram a telemedicina, no Brasil, o assunto ainda está em franca discussão, e para trazer uma visão internacional sobre o assunto, o médico espanhol Manuel Grandal, que é mestre em Bioética, Saúde Pública e Administração em Saúde, além de Gestão Médica e Gestão Clínica, falou sobre a eficiência e eficácia da telemedicina como suporte clínico a hospitais trazendo exemplos de Madrid, Espanha. O especialista explicou sobre o processo de implantação da telemedicina e como a tecnologia barateou conforme foi avançando, possibilitando mais acesso à saúde e reduzindo custos.

“As teleconsultas realizadas nos primeiros seis anos tiveram um custo individual de € 101,6. Já as consultas realizadas entre 2013 e 2017 custaram apenas € 9,10. A telemedicina mantém um nível de eficácia clínica semelhante à das consultas presenciais, promove um maior acesso à saúde e estimula o conhecimento científico. Além disso, é um sistema economicamente rentável. A telemedicina é e será uma das inovações tecnológicas que mais contribuirá para a atenção de pacientes com critérios e eficiência e qualidade”.

Em seguida foi a vez de Carlos Pedrotti, médico-referência do Centro de Telemedicina do Hospital Albert Einstein, explicar como a telemedicina e a saúde digital estão ampliando o acesso à saúde. “Hoje nós vemos uma onda de disrupção não só na área da saúde, mas em todos os segmentos. A ideia é que a gente consiga, por meio da telemedicina, atingir três objetivos principais: melhorar a experiência do paciente, melhorar o cuidado com a população e ao mesmo tempo reduzir custos”, explicou.

O médico trouxe a experiência da implantação da telemedicina no Albert Einstein, como funciona o processo de triagem e quais foram os resultados: com a Central Telemedicina, de outubro de 2016 a agosto de 2019, somente 18,1% foram enviados ao Pronto Atendimento, 81% dos pacientes tiveram alta e 96,9% ficaram satisfeitos. “Existe uma sinergia muito grande entre a telemedicina e a Atenção Primária à Saúde. A nossa ideia foi criar um sistema em que o paciente de fato pudesse se conectar com o médico”, acrescentou.

Para finalizar, Rodrigo Teixeira, médico, empreendedor e mentor de startups, falou sobre a transformação digital na saúde: “O maior desafio da saúde suplementar é equilibrar eficiência operacional com a inovação”. O especialista apresentou dois cases de saúde digital, um sobre o monitoramento de pacientes crônicos, que transformou a gestão desses pacientes de reativa para proativa, e uma assistente virtual que fornece orientações básicas de saúde, agenda serviços de maneira mais conveniente e reúne todas as informações em uma mesma plataforma.

“A Atenção Primária à Saúde aumentará sua relevância com o uso de ferramentas de saúde digitais. Ver a UNIDAS lançando uma plataforma digital de compartilhamento de serviços mostra que estamos no mesmo caminho. Nós precisamos nos unir, prestadores, operadoras e agências reguladoras, para assumirmos um papel que por direito é nosso: o de transformadores na saúde digital”, acrescentou Rodrigo.

Talk Show – Novos Modelos de Atenção à Saúde

A colombiana Alexandra Malagon, que é CEO do Grupo Keralty no Brasil, falou sobre o modelo de saúde da Colômbia e o modelo de Saúde Keralty, que tem 4,5 milhões de usuários em sete países. “Hoje, nós temos problemas que são compartilhados por todos no setor: população envelhecendo, maior expectativa de vida, doenças crônicas e desperdícios em toda cadeia de saúde”, explicou.

Alexandra abordou sobre as principais características do modelo de saúde colombiano, que passa pela educação do paciente e do trabalho em comunidade, conseguindo uma redução de 60?s internações: “A pessoa também é responsável pela sua saúde e precisa entender e cuidar dela. É necessário que todos os atores estejam envolvidos. Além disso, nós precisamos aprender a trabalhar com a rede credenciada, temos que aprender a fazer parcerias adequadas, porque cada ator do sistema tem sua relevância”, acrescentou.

Em seguida, foi a vez do idealizador e CEO da Livon Saúde, um hub de performance em saúde, em sua apresentação, Rodrigo Tanus, que mostrou como alinhar interesses dos stakeholders em saúde para entrega de performance e valor usando a VBHC (Value-Based Healthcare) ou cuidados de saúde baseado em valor que, segundo o palestrante, é muito mais do que a mudança do modelo de pagamento.

Tanus, inclusive, ressaltou que o hub de performance está alinhado à recém-lançada plataforma de marketplace da UNIDAS, que visa compartilhar serviços com as autogestões, a fim de reduzir custos e aumentar a eficiência do setor. Segundo Tanus, por meio da tecnologia, é possível estratificar dados e conduzir a gestão da melhor maneira possível. “O critério performance está alinhado com o segmento da saúde e, portanto, a utilização da tecnologia é fundamental para virarmos o jogo”, explica.

Depois, foi a vez do diretor-adjunto de Desenvolvimento Setorial na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Daniel Pereira, que falou sobre os novos modelos de atenção à saúde. Inicialmente, Pereira deu um panorama sobre o setor, destacando dados que apontam a retomada do número de beneficiários, cujo cenário fora amplamente afetado pela crise econômica dos últimos anos.

Daniel Pereira também ressaltou a importância da saúde baseada em valor, enfatizando a necessidade de um sistema justo e o papel da agência para viabilizar essa condição. E para chegar a esse resultado, o diretor-adjunto da ANS enfatizou a importância de um programa bem estruturado de Atenção Primária à Saúde, onde as operadoras poderão aderir em duas modalidades: Certificação de Boas Práticas em APS e por meio de projetos-piloto.

Dentre os projetos já colocados em práticas pela ANS, Pereira destacou o Parto Adequado, que em quatro anos de atuação já evitou mais de 20 mil cesáreas desnecessárias.

Por fim, Daniel Pereira ressaltou a importância de prestadores e operadoras se unirem em prol de um melhor serviço aos beneficiários. “Não temos como falar em melhorias se não houver alinhamento entre os parceiros, a fim de não respingar negativamente nos beneficiários, que precisam sempre ser o centro da discussão”, concluiu.

A importância dos programas de gerenciamento de doenças crônicas nas autogestões

Com os avanços da tecnologia, novos tratamentos de alta complexidade foram incorporados para pacientes portadores de doenças crônicas. No entanto, mesmo após 15 anos do surgimento dessas medicações, o setor ainda carece de uma melhor gestão desses pacientes. Além disso, o tratamento de doenças crônicas e a sua não condução adequada contribuem de forma relevante para os custos assistenciais, impactando a sustentabilidade do setor. É essa discussão que os médicos João Paulo dos Reis Neto, presidente da Capesesp (Caixa de Previdência e Assistência dos Servidores da Fundação Nacional de Saúde), e Reno Martins Coelho, diretor Médico do CID Grupo, fizeram no 22º Congresso UNIDAS.

Para João Paulo, que focou a sua apresentação na Insuficiência Cardíaca Congestiva, é necessário mudar algumas práticas na gestão de doenças crônicas: “A realização de um perfil epidemiológico da população, por exemplo, é fundamental para determinar a carga das doenças crônicas. Salvo poucas exceções, as operadoras de saúde não fazem isso”.

Para Reno Martins Coelho, o maior desafio é chamar a atenção dos gestores sobre o quanto as operadoras de saúde precisam se aprofundar na discussão sobre um modelo de gestão de pacientes crônicos. “O que estamos fazendo com esses pacientes em nível de prevenção da evolução da doença em seus estágios iniciais e na gestão dos tratamentos de alto custo? Precisamos fazer essa reflexão, pois a gestão de pacientes crônicos em uso de medicações imunobiológicas ainda é tratada de forma muito superficial”, afirma.

De acordo com o médico, praticamente 100% dos pacientes que ingressam na terapia imunobiológica fazem o tratamento por tempo indeterminado, mas não há uma gestão disso. “Que paciente é esse? Ele fuma ou não? Qual o índice de massa corporal (IMC)? É diabético? Está aderindo ao tratamento? Qual o desfecho do tratamento? Todos esses aspectos estão diretamente ligados a custo-efetividade do tratamento proposto, impactando a sustentabilidade do setor”, acrescenta.

Para o médico, é necessário criar um modelo de gestão “pré e pós início do uso de terapia imunobiológica”, desenvolvida em parceria com os prestadores de serviços, seja no atendimento médico ambulatorial ou em centros de terapia assistida. “O conceito deve ser baseado principalmente na identificação de fatores de risco para doenças de pior prognóstico, respeito às etapas “pré imunobiológico”, adesão, segurança e desfecho do tratamento proposto”, finaliza.

Já para João Paulo, é necessário mudar algumas práticas na gestão de doenças crônicas: “A realização de um perfil epidemiológico da população, por exemplo, é fundamental para determinar a carga das doenças crônicas. Salvo poucas exceções, as operadoras de saúde não fazem isso”.

Palestra magna – O Cenário Econômico do Brasil para os Próximos Anos

Para encerrar o dia, o economista Adeodato Netto, que é estrategista-chefe da Eleven Financial Research e membro do grupo de profissionais de mercado que discute política monetária e macroeconomia com o Banco Central do Brasil, abriu a palestra magna do 22º Congresso UNIDAS com a seguinte mensagem: “somos agentes da transformação”.

Passando para a seara econômica, o palestrante ressaltou que o que transforma a economia é a implosão da densidade demográfica. A partir dessa reflexão, o economista passou por temas que regem a atualidade econômica, como desaceleração da China; eleição de Donald Trump, Brexit, instabilidade política da União Europeia, conflitos no Oriente Médio e ebulição na América Latina.

“O mundo está uma ‘salada’ inimaginável. Mas a grande notícia é que não precisamos mais tanto do mundo, porque o crescimento global está encolhendo, sobretudo relacionado ao envelhecimento. As previdências não têm como sustentar todo mundo. Com cada vez mais gente sustentada mais tempo por menos gente trabalhando, falta dinheiro. Esse desequilíbrio é um problema estrutural, principalmente quando não tem saldo”. E ainda continua: “fomos acostumados a entender que o governo era o grande vilão, a política era o inimigo, mas quando tínhamos problemas, corríamos para eles. Diante desse cenário, há um ciclo de desconfianças e instabilidade”.

Adeodato finalizou a apresentação com uma mensagem positiva em relação ao país: “pela primeira vez no Brasil, a gente não precisa que dê tudo certo. Se der meio errado já está muito bom”.

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